Dificuldade

POST ALTERADO NO DIA 23/11/2009, POIS OPTEI PELA ADIÇÃO DE MAIS UM TEXTO COLABORATIVO SOBRE A INTERFERÊNCIA PÚBLICA #2. SEGUINDO O TEXTO DO AMIGO THIAGO GOMES, ADICIONEI UM SEGUNDO, DESTA VEZ ESCRITO PELO COLABORADOR DANIEL FIGUEIREDO. A PARTIR DESSES DOIS TEXTOS ACHO QUE POSSO, DE FORMA MAIS EFETIVA, FALAR SOBRE ESSE EXPERIMENTO REALIZADO NO FESTIVAL PANORAMA DE DANÇA 2009.

ESSE POST MARCA A ABERTURA DAS DISCUSSÕES SOBRE O PRIMEIRO PERÍODO DA PESQUISA QUE “SE ENCERRA” NO MÊS DE NOVEMBRO. PARTICIPEM ATRAVÉS DOS COMENTÁRIOS.

Desde o último post, quando anunciei as minhas participações do Festival Panorama, venho tentando encontrar palavras que expressem o momento no qual a pesquisa se encontra. Após a “estratégica” leitura da obra de Martin Heidegger – sobre a questão da Metafísica e o referente Nada -, na intenção de apresentar uma relação, digamos, “irônica pós-moderna” a partir dos seus conceitos sobre a existência, ingressei em uma nova leitura: David Harvey – Condição Pós-moderna.

Apesar de estar profundamente interessado e afetado pelas abordagens do autor sobre a passagem da modernidade para a pós-modernidade cultural, através de argumentações sobre a arquitetura e o projeto urbano, a política econômica capitalista e as novas relações espaço-temporais, me sinto em um período de introspecção onde muitas dificuldades de apresentação das novas sensações se fazem presentes.

Por vários dias tentei clarificar textos que pudessem organizar minhas idéias e, conseqüentemente, me fazer entender nas novas postagens do blog. Tentativas em vão; cheguei à conclusão de que o mais interessante e apropriado seria falar exatamente sobre a dificuldade em que me encontro neste período de finalização da primeira etapa da pesquisa.

Após quase três meses de leituras, experimentações, discussões, postagens, etc., a passagem para a segunda etapa da pesquisa será marcada pela criação do “Plano de demonstração”, a ser enviado ao Itaú Cultural, no fim do mês de Novembro. Nesse plano estarão contidos todos os métodos aplicados na investigação, bem como os “meios” provisoriamente alcançados – nesta pesquisa, devo insistir em esclarecer tanto para mim quanto para as pessoas que colaboram ou acompanham o processo que, fins não serão alcançados: “não há respostas para as perguntas do ‘corpo urbano’” -, a fim de se obter um campo consistente de estudo para futuras criações ou evoluções do processo investigativo.

Seguindo a criação do “Plano de demonstração”, mais um encontro público deverá ser realizado; dessa vez, intitulado de “Conferência #1”, que caracterizar-se-á pelo convite a artistas que possam contribuir criticamente no processo, através de uma estrutura de discussões organizada a partir das experiências demonstradas. Essa conferência marca o encerramento de um primeiro ciclo que pode ser etiquetado como IMAGEM; ainda falaremos bastante de outras duas “linguagens do corpo urbano”: TEMPO e ESPAÇO.

Mas agora retornemos às atividades da pesquisa. Uma pergunta me vem sendo feita há algum tempo: “Interferência pública?!” Pessoas que acompanham, se relacionam ou apenas colidem, de certa forma, com certas atividades da pesquisa costumam questionar a intenção dessa interferência. É uma intervenção? Urbano? Um espetáculo? Você faz uma pesquisa?

Na primeira vez que fui questionado sobre a idéia de interferência pública, a resposta mais rápida que surgiu me pareceu a mais apropriada para definir as motivações dessas atividades, dentro do processo de pesquisa: “Algumas coisas são mais interessantes quando são experimentadas em público, ‘ao vivo’. Por isso, às vezes, saio do ‘estúdio’ para investigar junto com o público”.

Nas duas interferências que foram propostas nesse período da pesquisa, atentei para certos cuidados que podem se fazer necessários na justificação desse interesse de investigar junto (em conjunto) com o público. É possível que no primeiro encontro, realizado no dia 16 de Outubro – Sarau de professores CMDC -, o uso do termo “a gente” – “(…) a gente veio apresentar o experimento de uma pesquisa (…)” – tenha sido inteiramente apropriado, pelo fato de eu estar dividindo a cena com um dos colaboradores, Daniel Figueiredo. O termo que me motivou mais neste encontro, talvez tenha sido “verdade”, termo este que fora repetido de forma casual, porém insistente, durante a explanação; “verdade” foi um termo que guiou de maneira interessante o experimento que fora apresentado ao público, como eu mesmo afirmei.

No dia 10 de Novembro, na Mostra Universitária do Festival Panorama de Dança 2009, realizamos (a gente realizou) a segunda interferência pública da pesquisa, após a contemplação no programa Rumos. É importante lembrar que propostas cênicas relacionadas ao surgimento dos campos de investigação das dinâmicas do corpo urbano foram realizadas em outros três momentos, antes da confirmação dos selecionados no Rumos Dança 2009/2010.

Desta vez, o palco estava ocupado apenas por mim, mas, arrisco dizer que a cena estava ocupada por todos que compartilhavam daquele momento, em suas cadeiras, nas coxias, nos bastidores, etc. É a partir dessa idéia que reitero o termo “a gente” – “A gente vai fazer um experimento (…)”. Não houve apresentação, a gente experimentou juntos; vimos os “meios” se cruzarem no mesmo instante. Não houve preparação para além da iniciativa base da interferência. Acredito encontrar-se aí uma importante frente de investigação do “corpo urbano” e suas reflexões sobre corpo e mentalidade – já falamos anteriormente sobre o que podemos entender de “corpo urbano” após certo tempo de pesquisa desenvolvida.

Se na primeira interferência podemos dizer que, basicamente projetamos, de forma literal e apelativa, uma “farsa” do imaginário do homem urbano pós-moderno através da reprodução do discurso, da contenção do corpo que se apresenta como especial e sua heroificação, nesta segunda investida sobre a questão do imaginário e a construção de seus valores, a responsabilidade de projeção foi entregue ao público – se é que devemos nomeá-lo assim.

Um grande amigo me solicitou permissão para que ele pudesse escrever sobre o experimento. Portanto, inicialmente, não escrevei nada, não adicionarei fotos ou vídeos.

Interferência Pública #2 – por Thiago Gomes

Interferência pública #2. Esse é o nome do segundo experimento do meu amigo Bernardo Stumpf a respeito de sua pesquisa intitulada “Dinâmicas do Corpo Urbano”. Estive nos dois experimentos e tenho acompanhado sua pesquisa de perto, seja aqui pelo blog, ou em conversas na faculdade. Não quero com esse post estabelecer uma discussão sobre a interferência, mas sim, deixar registrado minhas impressões sobre a mesma e suas circunstâncias.

Mostra Universitária do prestigiado Festival Panorama de Dança 2009. Esperava uma outra postura dos espectadores (a grande maioria de estudantes dos três únicos cursos de dança do Rio de Janeiro: UniverCidade, Faculdade Angel Vianna e UFRJ), que a cada anúncio de coreografia, no qual era citado o nome do trabalho, o respectivo criador e/ou intérprete e ao curso a que era vinculado, gritavam o nome da instituição que faziam parte, como se defendessem a academia de dança num festival competitivo. Fiquei bem decepcionado. Achei que fosse conhecer novas pessoas, que fosse discutir trabalhos e pontos de vista. Frustrei-me.

Mas, por outro lado não podia ter sido um ambiente melhor para o experimento de Bernardo. Vou agora descrevê-lo, para assim melhor explicitar minhas considerações. Bernardo entra em cena e menciona o motivo da sua presença ali: o experimento Interferência pública #2, e a sua pesquisa contemplada no edital do Rumos Itaú Cultural 2009/2010. Em seguida, Bernardo, que está vestindo uma camisa branca, tira do bolso uma caneta, e começa desenhar o contorno de sua musculatura da caixa torácica. Peitoral, abdômen, serrátil… Todos esses músculos que em proporções específicas, são o sonho de imagem que muitos homens gostariam de ter. Afinal esse é o estereotipo clássico de um corpo belo. Durante essa cena, a platéia descrita no parágrafo anterior delira, todos os tipos de adjetivo são usados, e os assobios de “fiu-fiu” são inevitáveis. Nesse momento Bernardo que mantinha uma postura neutra diante daquilo, abre um leve e discreto sorriso, que a meu ver o deixou na corda bamba do experimento. O agente da cena foi de encontro ao público, ou seja, ele permitiu que seu experimento se tornasse um fracasso, perdendo o controle da relação performer/espectador. Não que esteja errado ou certo que a platéia se manifeste do jeito que estava, mas por um instante o experimento pode perder a validade, por conta dessa “aprovação” que Bernardo deu a platéia. Bernardo, com esse ato de sorrir, permitiu que o espectador invadisse a sua obra. Continuando… Ao terminar de pintar esses contornos, Bernardo se aproxima da platéia e de costas para o espectador, saca a caneta do bolso. Prontamente dois espectadores, saíram de sua cadeira e começaram a fazer o mesmo na parte de traz da camisa. Cada uma delas (eram duas moças) pintou o que achou melhor. Derramaram na camisa, toda a imagem que gostariam que o Bernardo tivesse, ou a imagem que faziam dele. O restante do público, por sua vez, não ficou de fora, ajudavam as duas moças com idéias: Pinta isso! Pinta aquilo! Gritavam todos. Projetando suas vontades e anseios na camisa de Bernardo.

Fiquei pensando. Se fosse eu com a caneta, o que teria pintado? Será que somos honestos consigo? Será que sempre projetamos aos outros a imagem do que gostaríamos de ser, e não de nós mesmos? Será que selecionamos os nossos nichos através dessas projeções? Se for assim, somos falsos consigo mesmo? E o corpo em tudo isso? Ele é só um divisor de alteridades? Se a existência se realiza no corpo, como posso simplesmente existir, e não querer comunicar algo com ele? No momento em que escrevo esse post, percebo como esse experimento me afetou. Como essas questões que levantei são preocupantes para mim. A condição pós-moderna me parece ingrata aos entes. Escravos obrigados a procurar sua própria sobrevivência.

Interferência Pública #2 – por Daniel Figueiredo

Olá a todos os seguidores do blog da pesquisa “Dinâmicas do Corpo Urbano”. Sou Daniel Figueiredo. Apresento-me, pois há muito colaboro com a pesquisa, junto ao Bernardo, e nunca fiz se quer um comentário sobre o que ele escreve aqui. Pois bem, aproveitando a bem vinda oportunidade e minha vontade de dizer algo a todos que se interessam por essa pesquisa ou pelo Bernardo e sua trajetória profissional, dedico esse tempo para as minhas impressões sobre o andamento do trabalho.

Para não me tornar muito alongado, não vou entrar em detalhes dos experimentos e sim, no que surgiu para mim após o acontecimento deles.

Este período da pesquisa na qual estamos mergulhados pode-se rotular de IMAGEM. Nesta fase, conseguimos entrar em algumas facetas deste polígono mutável. Primeiro projetamos uma imagem que só existiu na cabeça das pessoas. A “verdade” é que nada foi projetado pelo artista que produzisse, de fato, uma imagem existente. Não houve texto, nem fala, nem dança ritmada, fisicalidade, habilidade técnica ou qualquer artifício que fizesse o artista projetar alguma coisa. Ele apenas induziu o público a esperar alguma coisa que já estava dentro de cada espectador. Inclusive os que estavam esperando menos. Houve comentários diversos e adversos à pesquisa. No segundo experimento, mudamos o foco da pesquisa, mas o estimulo foi bem parecido. Na verdade, em minha opinião, o segundo experimento só vem para corrigir os erros do primeiro e reforçar a “verdade”. Nesta Interferência Pública #2, o artista continuou a não projetar nada além da própria imagem, mesmo usando uma caneta para desenhar seu próprio contorno monocromático. Quem estava presente continuou a enxergar aquilo que viu. Se viram um belo corpo que caracteriza o status de um homem bonito ou saudável, ou desejável, ou sexy, ou exibido, ou pretensioso; cada um viu o que quis projetar naquela tela branca. Este experimento ficou tão marcado para o público, que projetava não só na camisa branca como também na mão das senhoritas que desenhavam de fato naquela tela, que esqueceram de lembrar do único movimento que ele faz durante todo o experimento. O que era? O êxtase da possibilidade de responsabilizar outra pessoa pelo que pensaram fez o público se livrar da culpa de pensar aquilo que queriam. E se riram, qual é o problema? E se o artista riu, qual é o problema? Qual é o problema da “verdade”? Por que não queremos nos responsabilizar pelo que projetamos? Será que vivemos realmente livremente?

Não existe problema na projeção de uma imagem. O problema está em algum lugar que exista? Talvez o problema seja que tudo tenha que existir. Ser rotulado, classificado e julgado. A imagem por ela mesma, já não é material.

Se chegaram até aqui, obrigado e até o próximo post.

3 comentários até agora

  1. William Freitas on

    Não poderia deixar de comentar sobre este último post, mais especificamente, sobre o depoimento de Thiago Gomes sobre a interferência pública #2 realizada pelo Bernardo.

    Primeiramente, gostei muito do experimento em sí, mas o que mais me chamou a atenção de fato, foram os questionamentos levantados pelo amigo Thiago no último parágrafo de seu depoimento, principalmente o último questionamento: “Se a existência se realiza no corpo, como posso simplesmente existir, e não querer comunicar algo com ele?”, e a frase com que colclui, “Escravos obrigados a procurar sua própria sobrevivência”.

    Uma inquietação muito semelhante me atravessa (gosto de usar esta expressão, pois acredito que este é um fato de extrema impotância). Porque “escravos” são aqueles que, talvez, não se permitam a inquietação, os quetionamentos e se limitem apenas a um único universo de uma “condição” pós-moderna. Que condição é esta? Ou melhor, que condições? Existem algumas “cascas” que devem cair no caminho desta tal sobrevivência. Afinal, somos apenas matéria e devemos comunicar e produzir, não apenas reproduzir.

    Abraço

  2. Bernardo Stumpf on

    Oi Will, como você está meu querido?! Legal saber que essas questões te motivaram a expressar algo aqui no blog. Com certeza, a partir dos textos do Thiago e do Daniel (adicionado recentemente), mais o seu comentário, me observo em um terreno mais interessante para iniciar um aprofundamento nas questões que me movem nesses experimentos. Por motivos técnicos e ideológicos, resolvi não adicionar vídeos ou fotos nesse momento, mas, em breve acho que poderemos “aquecer” essas problematizações com algum material midiático.

    Então, em breve, adicionarei novos comentários sobre essa discussão. Obrigado pela sua abordagem e boa sorte para todos nós em nossas pesquisas.

    Saudades de você e do resto do pessoal. Beijos para todos!

    • William Freitas on

      Oi Bernardo!

      Cara, lí tua resposta do meu comentário somente hoje (23/12). Comigo tudo bem! E contigo? Tudo certo aí nos EUA?

      Fui ver tua resposta quando lia o último post em que tu comentas alguns pontos que te ficaram mais claros, faz citações sobre tempo e espaço e finaliza falando sobre poesia da ironia.

      Fico feliz em, de alguma forma, estar em sintonia e dividindo tais inquietações e colaborando com o processo. Acredito muito no atravessar-se, ser atravessado e ir atravessando. Parece meio vago, mas acho que o deixar-se e permitir-se tais estados de desconforto e tais inquietações está diretamente relacionado a novas descobertas, novos caminhos e novos pontos de observação.

      Boas investigações! Boas poesias irônicas e irônicas poesias!

      Boas festas!

      Grande abraço!


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