Dinâmicas do Corpo Urbano… O que?!?! (parte 2)

O primeiro post inserido no blog da pesquisa foi intitulado dessa forma: “Dinâmicas do Corpo Urbano… O que?!?!”. Uma primeira questão acerca do que pretendíamos com essa investigação do que chamamos de “relação entre corpo e mentalidade do Homem urbano”.

Apesar de a pesquisa ter caminhado por lugares interessantíssimos, uma pergunta ainda se mantinha presente o tempo todo, intensificando-se a cada pequena etapa do processo: “O que?!?!”.

Mas não “o que estamos investigando” ou “o que eu procuro”, “o que sei lá o que”. Depois de algumas semanas de trabalho a pergunta que realmente iniciou as mudanças de caminho da pesquisa foi: “O que esse ‘Dinâmicas do Corpo Urbano’ está fazendo aí?!?!”.

A partir desse momento, a gente começa a falar de coisas que ocorreram já há algum tempo, no processo. Em Outubro de 2009, o post “Qual é o seu discurso?” propunha uma idéia de: como os discursos (tudo é um discurso, qualquer ação, tudo são performances) criam imaginários hiper-reais. Essa pergunta, logicamente, foi feita também para mim e eu tive que investigá-la. Qual seria o meu discurso? Qual a minha ação que vai propor a minha hiper-realidade (ou não)? Que tipo de relação imagética eu quero estabelecer? É isso que eu quero? Esse foi o primeiro momento em que questionei o título da pesquisa, porém, ainda sem dar muita atenção à questão.

As “Dinâmicas do Corpo Urbano” começaram a ser tratadas como uma espécie de metáfora para o foco que se instalava na pesquisa. Estaríamos falando de uma espécie de “A caoticidade urbana e a imagem”. E foi seguindo essa posição que propusemos o experimento da camisa (tela branca).

Esse experimento foi importante, no sentido de abrir discussões sobre as projeções imagéticas que lançamos a partir da idéia de um corpo propaganda. Mas um corpo específico, de certa forma. Talvez, naquele momento, estivéssemos tratando de metáforas acerca de qualquer idéia desse “corpo urbano”. Mas talvez não estivéssemos representando um ideal de corpo; Talvez tivéssemos um corpo específico, representando uma série de ideais relacionados à sua própria aparência e posição sócio-cultural (ainda tenho problemas com essas afirmações).

Mais uma vez perguntei-me: O que isso tem a ver com esse tal de “Dinâmicas do Corpo Urbano”? Esse título passou a funcionar como ferramenta de incômodo. O nome já me incomodava. Não era esse título que completava as questões da pesquisa. Não era mais DCU. O discurso era outro. Mas eu não sabia o que era. Então levei DCU à frente como uma ironia de mim mesmo.

Na segunda quinzena do mês de Novembro, realizei que talvez estivesse “levando a sério demais” – no sentido de estar abraçando muitas causas conceituais e me privando de certas questões possivelmente mais apropriadas e efetivas, em uma esfera mais centrada e simplificada dessas investigações – essa questão de “corpo urbano” quando, em casa, bebendo cerveja e jogando vídeo-game com os amigos, me deparei com o que seria um caminho bem interessante a seguir, de acordo com as questões que eu queria propor. Conferência #1, Street Fighter 2, viagem aos EUA. Pouca coisa foi falada sobre esses momentos da pesquisa; o período de hibernação talvez se explique, no sentido de que eu precisava dar tempo para essas informações se localizarem no processo.

Quando retornei ao Brasil, a caminho de Curitiba, tive dificuldades em me posicionar no retorno às atividades da pesquisa. As questões abertas no início do mês de Dezembro (Michael Jackson, Ken X Blanka) me faziam pensar sobre o que seria essa pesquisa. Não poderia mais manter essa idéia de estudo do comportamento, a questão do “corpourbano”: isso é tudo amplo demais; precisava me focar, focar mesmo.

O foco foi alcançado. Isso não é indicação de acerto, êxito. Foco. Apenas foco. Realizei alguns encontros de colaboração com a Cândida, discutimos muito, ela propôs muito, pensamos, testamos e promovemos um encontro com alguns artistas em Curitiba (Conferência #2 – Mostra de processo). Nesse momento, eu já vinha buscando uma confirmação para os caminhos os quais intencionava em trilhar, a partir do experimento “Ken X Blanka”.

Curiosamente, algumas escolhas – não-habituais durante o processo – tomadas no momento da conferência, serviram como ótimos pontos de partida para problematizações que me fizeram optar por realmente assumir as mudanças sofridas no ambiente da pesquisa. Agradeço a todos os que estiveram presentes nesse importante momento para as minhas investigações; incluo: Airton Rodrigues, Angelo Luz, Cândida Monte, Gustavo Bittencourt, Jorge Alencar, Juliana Brungera, Neto Machado, Ricardo Marinelli, Wellington Guitti.

Dentre outras discussões que desenvolvemos no encontro, a questão “Dinâmicas do Corpo Urbano” foi novamente problematizada. Na minha cabeça existia um nome: JIMMY. Esse era um título em potencial para mim, de acordo com os experimentos partidos do Street Fighter 2. Todos os participantes do encontro se envolveram bastante com as questões abordadas a partir desse experimento (o último, antes do período de hibernação) e chegamos a propor algumas idéias, em grupo.

Em resumo, após esse encontro, percebi que era realmente o momento de definir novas diretrizes e rumos para a pesquisa. Muita informação foi acumulada, combinada, aplicada, eliminada. Balanços foram feitos, experimentos discutidos, questões colocadas. Dinâmicas do Corpo Urbano realmente, há um tempo, já não tinha mais espaço como tema-título-foco desse projeto.

A pesquisa caminha para a Mostra de Processo do programa Rumos com um novo título:

“JIMMY, THE JUNGLE BEAST”

Não apenas um novo título, mas, realmente, um foco foi encontrado e, a partir desse momento, invisto minhas investigações em um campo de informações mais preciso, mas, nem por isso, de menor alcance. Falaremos mais sobre isso em breve.

Retomando o movimento

No dia 1º de Fevereiro, dei início à etapa – possivelmente – mais fisicalista da pesquisa. O período de colaboração com a artista Cândida Monte, que acontecerá até o dia 17 do referente mês, acredito eu, será marcado por uma profunda discussão da posição em que me encontro nesse processo, como pensador e como movimentador. Em uma conversa informal com Cândida, discutimos um pouco sobre algumas coisas que ainda não foram expressas no blog ou nos experimentos já realizados. Duas perguntas de grande pertinência podem guiar os comentários que se seguem.

Quando foi que eu abandonei o movimento?

Por quê?

É interessante, para mim, pensar nessa pesquisa como minha primeira abordagem sobre o que representa essa colisão existente nas minhas investigações de movimento e conceitos. Acredito que eu goste de entender que não abandonei o movimento, mas, me desviei do caminho da experimentação por improvisação, estimulação tátil, etc. para me reencontrar com o movimento, em um momento avançado da pesquisa, sem a superficialidade da pura representação, através de uma gama de técnicas e possibilidades de construção mecânica.

As “Dinâmicas do Corpo Urbano”, mesmo como título, tornaram-se, nos primeiros meses de investigação, uma questão tão importante quanto as decisões tomadas acerca das leituras, práticas e discussões adotadas no processo. No mesmo instante em que esse rótulo passou a ter sua validade e efetividade discutidos, durante o desenvolvimento dos experimentos, a utilização do movimento, em si, também entrou em cheque.

Senti que não poderia propor uma discussão apropriada sobre a já citada relação entre o conceito de corpo e mentalidade urbana pós-moderna – até o presente momento, o principal foco do projeto – sem questionar todas as suas ramificações, inclusive o simples fato de utilizar-me do movimento da dança (tradicionalmente conhecido) como ferramenta de comunicação, bem como o próprio nome da pesquisa, que já não tem valor, senão como parte da ironia presente no processo (o nome do projeto é péssimo, seu release não vai muito longe disso, mas, talvez por isso ambos devam ser mantidos nessa contraposição proposta para o movimento; em um futuro próximo, numa suposta fase criativa do projeto, essas questões deverão ser repensadas). Essa relação do movimento com a questão do “corpo urbano” deveria ser questionada em proporções semelhantes às teorias sócio-culturais, políticas, antropológicas, etc. utilizadas como base de estudos.

Após o “período de hibernação”, quando as informações puderam ser avaliadas de forma mais calculada, eu retorno às atividades práticas com uma abordagem diferente sobre o uso do movimento de dança, no questionamento do “corpo urbano” e suas aparências.

No primeiro contato entre mim e Cândida, demonstrei os experimentos já realizados, expus as idéias contidas nos novos experimentos e conversamos bastante sobre os caminhos aos quais essas proposições levariam o contexto da pesquisa. Traçamos diretrizes para realizarmos algumas adaptações, modificações, junções, elaborações e alguns verbos a mais que couberam nessa conversa.

Basicamente, iremos nos focar no seguimento da questão das “aparências corporais” e abriremos algumas novas portas que foram “selecionadas” no início da pesquisa, tais como as monstruosidades do corpo social, o tempo e o espaço no corpo urbano e, visando à Mostra de Processos que será realizada na primeira quinzena de Março, definiremos parâmetros de demonstração.

No dia 06 de Fevereiro, realizaremos uma segunda Conferência, com a participação de artistas e público convidados. Neste encontro, buscaremos expor o ambiente de nova transição em que o projeto se encontra – apesar do pouco tempo restante até a Mostra de Processos em São Paulo – neste “retorno ao movimento”, analisando as correspondências dessa retomada fisicalista com os conceitos investigados durante os cinco primeiros meses de pesquisa.

Este é o momento no qual daremos “segundos passos” em experimentos passados, como “Street Fighter 2” que apenas fora citado no blog, após uma breve experiência como Interferência Pública, em Dezembro de 2009, bem como “primeiros passos” em idéias formuladas no início do processo que não haviam sido experimentadas ainda.

Novas leituras guiam o encontro colaborativo. Uma delas é o website do projeto OPUS CORPUS, de Stéphane Malysse.

Retorno

A partir do dia 25 de Janeiro, inicio a conclusão da pesquisa. Não o início do fim, mas uma primeira constatação, a fim de podermos desenvolver o formato da demonstração que será realizada na segunda semana de Março, em São Paulo. Essa última etapa acontecerá em Curitiba, onde trabalharei em colaboração com a amiga Cândida Monte que, há algum tempo, já vem colaborando com minhas idéias. Vamos trocar algumas figurinhas sobre projetos um do outro.

O trabalho agora retoma a rotina diária e o blog, por sua vez, tornar-se-á (nesse momento, juro que não encontrei palavra melhor – não sou muito fã de floreios, mas, espero ter aplicado a alegoria de forma apropriada) mais movimentado novamente. Daremos alguns “passos atrás”, para podermos discorrer sobre alguns experimentos do ano de 2009, as experiências do início de 2010 no EUA e as perspectivas para essa constatação, a partir dos encontros, interferências, conferências, etc. desde o início da pesquisa, em si.

Sendo assim, está decretado o fim da hibernação, quando o ócio da pura observação foi responsável por uma importante tarefa dentro da pesquisa. Falaremos mais sobre isso posteriormente.

Momento importante

Há dois dias (06 de Janeiro de 2010) recebi um e-mail da amiga Micheline Torres, colocando uma problemática para a questão que todos tentamos resolver – investigar – através dessa pesquisa, a partir das impressões que ela teve no encontro realizado no dia 04 de Dezembro de 2009. Por alguns dias fiquei pensando em como inserir essas informações no blog.

Após ter sido autorizado, pela própria Micheline, a utilizar o texto da forma como eu quisesse, achei interessante não modificá-lo, cortá-lo ou editá-lo de forma geral. Apenas transferi-lo, na íntegra, para o blog. Considero interessante fazer isso, pelo fato da mensagem ter sido altamente coloquial, sem preocupação de formatação, correção ortográfica, como todos nós fazemos quando enviamos uma mensagem informal através do e-mail e, por outro lado, seu conteúdo é de extrema importância dentro dos assuntos os quais a pesquisa se propõe a percorrer.

Portanto, agradeço novamente à amiga Micheline pelo retorno oferecido e, após a inserção do texto no blog, em breve, volto a fazer considerações sobre seu conteúdo, bem como sobre os assuntos pendentes, do mês de Dezembro de 2009.

(peço desculpas por publicar trechos que, talvez, fossem apenas para meu conhecimento, mas, prometo não escrever sobre o que se propõe a espacializar corporalmente)

micheline torres – Re: tua pesquisa

Querido, elegi um ponto de entrada para minhas observaçoes e vamos ver se faço uma costura que lhe seja útil à partir deste ponto. Pensei em formatar estas ideias e costuras num jogo de perguntas-implicantes. (Sei que sou uma pessoa que só colocou um pezinho na pesquisa, mas vou entrando à partir desse “pezinho” mesmo.)


Que corpo é esse representado? Que tela branca/ camiseta é essa utilizada? O que o “desenho auto relevo” aponta?

O corpo, a camiseta, o desenho.

Afora a armadilha obvia de tentar responder a estas perguntas de forma razoavelmente conclusiva, de maneira a nos dar a ilusão de resolução de uma questao ( o que me é absolutamente impossivel de realizar), me detenho mesmo é no corpo, na camiseta e  no desenho, fisicamente, além  da ação cênica que você construiu para rodear, atravessar e costurar estes 3 elementos. Me detenho na ideia de que esta ação é um ponto de entrada no processo de tua pesquisa e, olhando assim deste buraquinho da janela, me estico pra olhar o processo no momento em que se encontra agora.

Pronto, fiz assim e, daqui de dentro (e sendo de fora) eu puxo alguns fios:

De primeira identifico 3 camadas:
•    a tela branca, passivel de ilustração/significação;
•    o desenho, produtor de imagem/sentido
•    o corpo, suporte e “recheio” dos 2 primeiros

Roubando as palavras do teu projeto, quando vc fala em  “sujeito, representação e totalidade”, me parece (dentre os muitos trabalhos que se podem levantar a partir desses 3 conceitos) que, na ação da camiseta, vc esta propondo um experimento destes conceitos.

E me pareceu essencial que vc chame o publico para preencher as possiveis representaçoes sobre este sujeito que se coloca passivel de intervenção, de preenchimento. A chamada do publico para compor esta ação com voce (para desenhar na camiseta) me parece constitutiva da pesquisa que vi ate agora, e explico onde mais vejo isso:

O uso do tempo alargado, exposto, a ser preenchido com imagens ou com vazios.

Sobre o uso do tempo, me parece que ele também convida à participação, ao preenchimento, à via dupla performer-publico.

Num de seus textos, nao lembro mais onde exatamente, vc fala da ideia, de alguma maneira, de dividir na pesquisa IMAGEM, TEMPO, ESPAÇO. Depois vc diz que nao é mesmo possivel fazer isto de maneira sistematica, absoluta. Acho que nao é mesmo. Mas identifico o trabalho sobre cada 1 destes pontos e como eles se atravessam e se separam.

No que vi naquele ensaio, nos experimentos com tempo e movimentos minimos, vejo o espaço vazio para que as imagens possam se estabelecer, desenvolver, transformar ou permanecer em suspensão ou em  close up. O Alvaro falou bem disso, da importancia disso no trabalho.

Parece que o uso alargado do tempo aponta pra uma transformação do que vejo, como se meu foco caminhasse e me fizesse focar ora o corpo bem localizavel de um “garoto saudavel forte carioca zona sul” (nomeação minha), ora uma camiseta branca a ser preenchida, ora movimentos potencialmente grandes mas que nao se dao a ver em sua extensao espacial, ora alguem que expoe metalinguisticamente o proprio processo de pesquisa sobre um corpo em pesquisa.

Cade as perguntas queu falei que ia usar pra implicar?

(acho q perdi no meio do caminho...mas sigo mesmo assim)


Me parece q o tempo é uma boa chave de transformação do trabalho, carregando a gente entre a camiseta, o corpo embaixo, o desenho em cima.
Tenho duvidas quanto a musica, mas o Daniel Figueiredo mesmo disse que é uma musica-estimulo, nada definitivo.

Tenho todas as duvidas quanto a sua roupa e o tenis Nike, na verdade acho gravissima a imagem que isso cola (desculpa  o sinal de emergencia, mas provavelmente é pq tenho trabalhado sobre marcas agora e conversado muito e tal, mas continuo achando grave mesmo…). Mas é pq nao é neutro, claro NADA é neutro e revela escolhas, localizações, contextos, e penso que isso é tao formador do trabalho quanto sequencias de movimentos, ideias, musica, cena ou nao cena, colaboradores, como é o chao, em que contexto vc  mostra o trabalho, que dinheiro que te paga (ou nao te paga), que contrapartida vc oferece, que teia economica vc ajuda a mover, como os editais nos formatam, politicas culturais, reforma da lei Rouanet, pessoa fisica ou juridica, rede de festivais, com tenis Nike ou meia ou pra onde vai o dinheiro do ECAD.

(ainda procuro as perguntas...)
 

Ok, desculpa o texto pulando, mas ta saindo mesmo aos soluços.

Re- achei algumas perguntas mas nao estao formuladas agora, entao mando assim mesmo, incompletas:

1.    Arquetipos de corpos, o que voce entende (se interessa) disto?
(Desenvolva o conceito, use os materiais que achar necessario.)
2.    NAO vou te perguntar  “Que corpo é esse” que vc expoe, pq esse pergunta pode ser um fosso ate o Japao, mas, dentro desse corpo que apareceu ate agora, você o vê transitando entre imagem, objeto, tela branca, desenho, carne e osso com DNA  ou todos ao mesmo tempo? Desenvolva.
3.    Como é esse “corpo urbano” que te interessa? Esta contido no seu corpo? Diz respeito aos corpos que te assistem?
(Nao escreva, desenvolva no espaço.)

4.    A´pos ler o trecho abaixo de “Cuerpos, política y sociedad: una cuestión de ética – Óscar Cornago”, o que te parece dos “corpos que nao importam” (que Judith Butler desenvolve no texto “bodies that matter”, que te mando em anexo).
Ou, dentro do “corpo urbano”, onde esta o corpo que nao é fisicamente sedutor, desejavel?

“Frente a épocas en las que el cuerpo apenas tuvo
visibilidad, la sociedad de  los medios es también, paradójicamente, la sociedad de
los cuerpos, una sociedad de cuerpos sin cuerpo, cuerpos convertidos en imagen
que viajan a la velocidad de Internet; cuerpos puestos en escena, construidos para
seducir, para ser vistos, cuerpos perfectos, operados, deformes o arruinados;
cuerpos sin vida o cuerpos desaparecidos, cuerpos excluidos o  cuerpos que no
importan, como dice Judith Butler”

Sugestao instrumentalizadora:
as perguntas e todas as palavras do texto soluçado acima devem servir como impulsos, entao utilize-as como achar mais potente. Pegue uma palavra e faça um desenho, responda com um video, esqueça todas elas, repasse pro  Daniel, diga que nao entendeu, entenda como quiser, coloque tudo numa garrafa e jogue na piscina de Petropolis, responda em 7 laudas, espaço 12, arquive, pergunte a Cândida, faça uma analise combinatoria das palavras, grave e utilize de tras pra frente no trabalho ou em mute, faça uma dança “bem bonita”, aperte control-C control-V, pergunte o que a moça que limpa sua casa acha de tudo isso (faça anotaçoes da opiniao dela!).

beijo carinhoso, Micheline

Anexo: como os corpos se tornam matéria.pdf


Hibernação

Devido ao longo período de distanciamento do blog, sem atualizações, discussões, etc., considero válidas algumas poucas considerações acerca do fato.

A viagem para os Estados Unidos da América tomou rumos diferentes que, em princípio, os vi como dificuldade em manter o ritmo acelerado no qual se encontravam as investigações. Passados vinte dias de estada, agora vejo essa hibernação como um ponto bastante positivo. Interrompi as leituras diárias, não estou preparando novos experimentos públicos, não tenho rotina de trabalho em estúdio – a amiga Cândida chegou a me dizer, no início do mês de Dezembro, que seria interessante se as leituras fossem cessadas, para que as informações pudessem ser corporificadas -; o que faço aqui nos Estados Unidos é observar, participar, aproveitar-me de todas as informações agregadas durante três meses de intenso trabalho investigativo, para me situar dentro das questões já relatadas anteriormente – imagética, espaço-temporal -, sobre os principais objetivos da pesquisa.

Neste sentido, interrompi também as atividades do blog que só serão retomadas, de forma mais intensa, a partir do dia 20 de Janeiro de 2010. Até lá, procurarei manter breves comentários, como este que faço agora, a fim de expor determinadas experiências alcançadas.

Há algumas semanas, iniciei a preparação de um post sobre uma importantíssima experiência, uma performance à qual fui assistir, logo na minha primeira semana em San Francisco. Acho que talvez esse seja um momento interessante para finalizar esse post.

Sendo assim, em breve retornarei ao blog com o post sobre as experiências no universo norte-americano, bem como com uma manifestação sobre o post Street Fighter 2, o qual apenas apontei, mas não discorri a respeito.

Street Fighter 2

Antes de prosseguir com os trabalhos, em San Francisco – CA, informo o placar parcial de Ken VS Blanka em Street Fighter 2:

KEN 81 X 0 BLANKA

Dance baby!

No próximo capítulo…

Demorei alguns dias para conseguir estabelecer um balanço de idéias, a fim de expor os comentários necessários – antes de iniciar a segunda etapa da pesquisa, em solo norte-americano -, referentes às últimas atividades realizadas no Rio de Janeiro. No momento em que preparo a escrita deste novo post, estou sentado no saguão do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, aguardando a abertura do portão número 9, que me levará ao avião da American Airlines, destinado a Miami, com conexão para San Francisco. Pretendo chegar a esse destino com algumas resoluções importantes sobre o que representou esse começo de pesquisa e o que serão os quarenta e três dias da segunda etapa. Portanto, vamos aos eventos que encerraram a etapa vigente, até o momento.

No dia 04 de Dezembro, realizamos um importante encontro, onde estavam presentes, além de mim e Daniel Figueiredo, outros artistas para com os quais tenho enorme respeito e admiração pelo trabalho que desenvolvem: Thiago Gomes (companheiro de faculdade que, de certa forma, acompanha a pesquisa e já teceu comentários importantes, inclusive no blog), Micheline Torres (uma das minhas últimas “amizades conquistadas”, durante o Prisma-Forum México 2009) e Álvaro Riveros (ator, diretor, fotógrafo, chileno – brincadeiras a parte, uma pessoa a quem tenho muito apreço).

A Conferência #1 caracterizou-se, basicamente, por uma profunda discussão sobre os caminhos adotados na pesquisa, a partir de explanações e demonstrações de todos os experimentos e bases investigativas utilizados nos três primeiros meses de “Dinâmicas do Corpo Urbano”, sob as diretrizes do Programa Rumos.

As mudanças de pensamento ocorridas durante a pesquisa, as referências literárias e suas abordagens dentro do processo, as repercussões e os meios alcançados no contato estabelecido com o público em geral, através do blog, das conversas e  interferências públicas, toda a gama de ferramentas utilizadas no questionamento dessa idéia que permeia o projeto; em termos populares, poderia colocar da seguinte forma: “Qual é a desse corpo urbano?”

Forçosamente, posso afirmar que não chegamos a resposta ou conclusão alguma – para a segurança e validade da pesquisa -, mas alcançamos importantíssimas questões acerca das representações desse campo de investigação da relação corpo X mentalidade, no Homem urbano pós-moderno.

Rio de Janeiro: “Atenção passageiros do vôo 904 – American Airlines, com destino a Miami. Embarque imediato pelo portão de número 9.”

Algumas palavras, insistentemente colocadas no encontro, parecem enraizar-se em todo o pequeno e efêmero universo da pesquisa já explorado. Falou-se muito de imagem durante esse período que estabeleceu o caráter comportamental do projeto, mas, interessantemente, nos deparamos muito mais com a questão “TEMPO”, na questão intitulada “IMAGEM”. Não que o “tempo”, tanto quanto o “espaço” pós-modernos, não estivessem sendo constantemente discutidos nesse “momento imagético”, porém, é curioso pensar porque a idéia do tempo, ou utilizando uma colocação de Álvaro Riveros, “dos tempos”, tenha se tornado tão pertinente e determinante nos experimentos que questionavam, principalmente, a relação do homem com a imagem a qual ele projeta e que o é projetada. A discussão do vazio, do desvalor, do nada, da suspensão, na qual vive e mentaliza o Homem urbano pós-moderno, vai muito além de uma simples, ou até mesmo profunda, investigação do universo imagético referente à nossa contemporaneidade (peço licença aos intelectuais para inventar termos) “Pós-Warhol” e “Pós-representatividade”, caótica em todo o seu potencial depositado na aparência, na ficção exteriorizada, na destruição do ícone pela sua própria figura de representação visual. Em toda a problemática da imagem do corpo urbano existe um tempo – uns tempos – específico, único, causa e conseqüência¹ dessa – citando o título da obra de David Harvey que serve como referência à pesquisa – “Condição Pós-moderna”.

Talvez, por algum momento, eu tenha pensado que seria possível compartimentar a pesquisa em três etapas, quase distintas: IMAGEM, TEMPO, ESPAÇO. Mesmo tendo conhecimento de que esses determinantes estariam sempre presentes nas investigações do corpo urbano – aqui é importante esclarecer que não se trata de imagem, tempo e espaço, mas imagem, tempo e espaço urbanos pós-modernos, pois seríamos demasiadamente ingênuos se considerássemos exclusiva à problemática do “corpo urbano”, a questão imagem/tempo/espaço -, bem como de que essa compartimentação foi feita a título de nomeação das etapas factuais às quais a pesquisa foi, está sendo e será submetida, neste momento, observo a impossibilidade de análise fragmentária sobre suas questões motrizes. Não é viável tratar do tempo urbano, sem pensar no espaço urbano. Não existe a questão da imagem urbana sem o espaço-tempo urbano. Não há corpo e mentalidade urbanos, sem o universo espaço-temporal urbano. Isso não é novidade, tampouco uma descoberta que muda todo o curso da investigação; após esse importante encontro vejo a observação como uma reiteração da necessidade em interconectar todas as origens, meios e produtos da pesquisa, em uma malha rizomática do espaço-tempo-imagem do corpo urbano. E talvez outra palavra ressurgida no encontro seja uma chave interessante para essa conexão: POESIA.

No primeiríssimo instante dessa pesquisa, antes da contemplação no Programa Rumos, falou-se de poesia. E a idéia fora “erroneamente descartada” com a “chegada da ironia”.

Miami: “What’s the purpose of your trip? What do you do for living in Brazil? Art?!” – “Passengers to flight 431 to San Francisco, boarding now on gate D44.”

A poesia. A ironia. Onde se encontram? Nesse período, é provável que eu inicie uma busca pela poesia contida na ironia. Não é possível falar de poesia apenas em seu sentido superficial, como conjunto de versos. A poesia, neste ambiente de questionamento irônico – a ironia também deve ser vista como uma característica inerente à condição pós-moderna, e não apenas em seu significado popularizado de contrariedade sarcástica -, deve surgir como um catalisador das ferramentas de investigação, a fim de promover um universo instigante ao convite e à colocação da questão para o público (quando digo convite e questão, aludo a um trabalho desenvolvido no Prisma-Forum México 2009 com David Dorfman, um artista norte-americano que ministrou um workshop sobre o comentário social do corpo. Fiquei marcado por uma conversa realizada em “sala de aula” sobre duas importantes necessidades, na implantação de um conceito em uma peça de arte: você deve convidar o público a questionar o que você propõe. Somente dessa forma será possível ser efetivo [effective], poético. O convite deve ser preciso e não-literal, e deve também forçar o público a querer resolver o problema que acompanha esse chamado para a Arte Contemporânea).

E é neste momento, no qual falo da poesia contida na ironia, que preciso trazer, para o campo da pesquisa, um experimento iniciado no trabalho com Dorfman e revisitado no dia 03 de Dezembro, durante a Mostra de Dança UniverCidade. Uma “performance” intitulada Announcement. Porém, não há cabimento em oferecer, como documentação no blog, sobre este experimento que não pretendia fazer parte das “Dinâmicas do Corpo Urbano”, mas acabou se tornando uma peça vital em sua questão poética, algo além da espécie de manifesto que fora escrito após sua execução. Fotos ou vídeos não são mais efetivos nessa poesia irônica.

Quem matou Michael Jackson?

(Bernardo Stumpf)

Quem o matou? Como ele morreu? Quando aconteceu? Questões demasiadamente complexas, frente à precisão do fato: Ele está morto. Sim, morreu. E não cabe a este manifesto discorrer sobre seus “porquês”, tampouco seus fins, mas sua seqüência factual. O manifesto subsegue a performance Announcement, na qual a morte do grande ícone é anunciada.

O microfone atenta para um discurso que deve ser ouvido, por todos. A tensão do silêncio, quebrado apenas pela vibração sonora do equipamento eletrônico, marca a separação entre a ignorância e o conhecimento. Anuncia-se. Agora, apesar do microfone desligado, todos sabem e, uma vez tomado o conhecimento, necessita-se de tempo para a digestão da informação. Nunca é fácil lidar com a morte, especialmente a de um ídolo.

A partir daí, não há mais artista, não há público, nem palco ou platéia, sequer há a Arte. Cada qual retorna para si, abriga-se no outro, recorre à verdade, a fim de compreender os motivos e as conseqüências do fato. A ausência do ídolo – aquele que nos completa e nos assegura de que, no fim, tudo serão glórias – nos faz sentirmos perdidos em um vazio de dúvidas. Queremos ter certeza, precisamos verificar se tudo está correto. Questionamos uns aos outros, questionamos a ausência do ícone, procuramo-lo em uma tentativa apaixonada de resgate; em seguida vem a negação: Ele nunca existiu, é uma farsa, uma cópia.

Aos poucos, passada a emoção do conhecimento primeiro do fato, retornamos à nossa razão e compartilhamos, de forma paradoxal, solitariamente e em grupo, alguns últimos instantes nostálgicos, uma última homenagem ao ídolo. A TV desligada, sequer conectada ao interruptor elétrico, anuncia: não há retorno, não há substituição, não há renascimento. Nem mesmo o microfone ligado altera o fato.

Michael Jackson está morto.

Diante dessas reflexões, acredito estar formado o campo para as investigações do objeto referente, em solo norte-americano. “May He bless us all”.

1 – É possível que o comentário sobre “causa” e “conseqüência” mereça uma verificação aprofundada.

Material + Conferência #1

Para auxiliar nas discussões sobre a Interferência pública #2, estou anexando o material obtido no referente encontro:

“Bem cultural” produzido pelos entes envolvidos no processo. Nesta camisa branca, foram expressos os anseios e afetos imagéticos do coletivo, não só em forma de traços, como também de paixões verbais e gestuais. A distorção das formas imaginárias, proposta no movimento performático, possivelmente se encontra retratada em todo o movimento de conexão estabelecido entre artista e público e, de certa forma, entre o público em si quando, em um determinado momento, a figura do artista desaparece, dando lugar a somente um campo de expressão coletivo das representações sociais da imagem – desprovida de valor – por parte dos “expectadores”.

A partir das sensações compartilhadas no encontro e da observação do “bem cultural” produzido, aludo a um trecho de um ensaio de Mirian Goldenberg e Marcelo Silva Ramos – citando Um, nenhum e cem mil, de Luigi Pirandello -, intitulado Civilização das formas: O corpo como valor: “Após tomar consciência de que não era tal como se via, mas como os outros o viam, bem como não era o que pensava ser, mas o que dele pensavam os outros, (…) procura decompor as imagens que dele faziam, numa busca ‘existencialista’ de si mesmo.”

Mais uma interferência (Interferência Pública #3) será realizada, no dia 03 de Dezembro (Quinta-Feira), às 10:00h, na Mostra de Dança da UniverCidade (escada de acesso ao teatro).

Seguindo esses experimentos, leituras, discussões e problematizações, reunidos em três meses de pesquisa, realizaremos uma conferência de demonstração dos processos adotados até o momento. Essa conferência – momento de discussão sobre os caminhos os quais a pesquisa percorre – coincide com o período estipulado para o envio do plano de demonstração da pesquisa, que servirá de base para o encontro da “Mostra de processos” do Rumos Itaú Cultural, que acontecerá em Março de 2010.

A Conferência #1 será realizada no dia 04 de Dezembro (Sexta-Feira), às 19:00h, no Centro de Movimento Deborah Colker (Mezanino). Aqueles que estiverem interessados em assistir aos processos, enviem um e-mail para bernardostumpf@yahoo.com, pois teremos vagas limitadas. Alguns artistas das áreas de Dança e Teatro foram convidados para abrir discussões e acredito que essa conferência será de grande valia para a nova etapa da pesquisa que se inicia no dia 09 de Dezembro em San Francisco (CA).

Entre 09 de Dezembro e 20 de Janeiro de 2010, estarei em San Francisco (CA) realizando observações e experimentos urbanos, assistindo e realizando performances, mantendo as leituras referenciais e abrindo os campos de investigação do “corpo urbano”. Em breve poderemos retornar ao assunto ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, citado no post Colisões ence fálicas.

Em breve, posts sobre a Interferência Pública #3 e a Conferência #1.

Dificuldade

POST ALTERADO NO DIA 23/11/2009, POIS OPTEI PELA ADIÇÃO DE MAIS UM TEXTO COLABORATIVO SOBRE A INTERFERÊNCIA PÚBLICA #2. SEGUINDO O TEXTO DO AMIGO THIAGO GOMES, ADICIONEI UM SEGUNDO, DESTA VEZ ESCRITO PELO COLABORADOR DANIEL FIGUEIREDO. A PARTIR DESSES DOIS TEXTOS ACHO QUE POSSO, DE FORMA MAIS EFETIVA, FALAR SOBRE ESSE EXPERIMENTO REALIZADO NO FESTIVAL PANORAMA DE DANÇA 2009.

ESSE POST MARCA A ABERTURA DAS DISCUSSÕES SOBRE O PRIMEIRO PERÍODO DA PESQUISA QUE “SE ENCERRA” NO MÊS DE NOVEMBRO. PARTICIPEM ATRAVÉS DOS COMENTÁRIOS.

Desde o último post, quando anunciei as minhas participações do Festival Panorama, venho tentando encontrar palavras que expressem o momento no qual a pesquisa se encontra. Após a “estratégica” leitura da obra de Martin Heidegger – sobre a questão da Metafísica e o referente Nada -, na intenção de apresentar uma relação, digamos, “irônica pós-moderna” a partir dos seus conceitos sobre a existência, ingressei em uma nova leitura: David Harvey – Condição Pós-moderna.

Apesar de estar profundamente interessado e afetado pelas abordagens do autor sobre a passagem da modernidade para a pós-modernidade cultural, através de argumentações sobre a arquitetura e o projeto urbano, a política econômica capitalista e as novas relações espaço-temporais, me sinto em um período de introspecção onde muitas dificuldades de apresentação das novas sensações se fazem presentes.

Por vários dias tentei clarificar textos que pudessem organizar minhas idéias e, conseqüentemente, me fazer entender nas novas postagens do blog. Tentativas em vão; cheguei à conclusão de que o mais interessante e apropriado seria falar exatamente sobre a dificuldade em que me encontro neste período de finalização da primeira etapa da pesquisa.

Após quase três meses de leituras, experimentações, discussões, postagens, etc., a passagem para a segunda etapa da pesquisa será marcada pela criação do “Plano de demonstração”, a ser enviado ao Itaú Cultural, no fim do mês de Novembro. Nesse plano estarão contidos todos os métodos aplicados na investigação, bem como os “meios” provisoriamente alcançados – nesta pesquisa, devo insistir em esclarecer tanto para mim quanto para as pessoas que colaboram ou acompanham o processo que, fins não serão alcançados: “não há respostas para as perguntas do ‘corpo urbano’” -, a fim de se obter um campo consistente de estudo para futuras criações ou evoluções do processo investigativo.

Seguindo a criação do “Plano de demonstração”, mais um encontro público deverá ser realizado; dessa vez, intitulado de “Conferência #1”, que caracterizar-se-á pelo convite a artistas que possam contribuir criticamente no processo, através de uma estrutura de discussões organizada a partir das experiências demonstradas. Essa conferência marca o encerramento de um primeiro ciclo que pode ser etiquetado como IMAGEM; ainda falaremos bastante de outras duas “linguagens do corpo urbano”: TEMPO e ESPAÇO.

Mas agora retornemos às atividades da pesquisa. Uma pergunta me vem sendo feita há algum tempo: “Interferência pública?!” Pessoas que acompanham, se relacionam ou apenas colidem, de certa forma, com certas atividades da pesquisa costumam questionar a intenção dessa interferência. É uma intervenção? Urbano? Um espetáculo? Você faz uma pesquisa?

Na primeira vez que fui questionado sobre a idéia de interferência pública, a resposta mais rápida que surgiu me pareceu a mais apropriada para definir as motivações dessas atividades, dentro do processo de pesquisa: “Algumas coisas são mais interessantes quando são experimentadas em público, ‘ao vivo’. Por isso, às vezes, saio do ‘estúdio’ para investigar junto com o público”.

Nas duas interferências que foram propostas nesse período da pesquisa, atentei para certos cuidados que podem se fazer necessários na justificação desse interesse de investigar junto (em conjunto) com o público. É possível que no primeiro encontro, realizado no dia 16 de Outubro – Sarau de professores CMDC -, o uso do termo “a gente” – “(…) a gente veio apresentar o experimento de uma pesquisa (…)” – tenha sido inteiramente apropriado, pelo fato de eu estar dividindo a cena com um dos colaboradores, Daniel Figueiredo. O termo que me motivou mais neste encontro, talvez tenha sido “verdade”, termo este que fora repetido de forma casual, porém insistente, durante a explanação; “verdade” foi um termo que guiou de maneira interessante o experimento que fora apresentado ao público, como eu mesmo afirmei.

No dia 10 de Novembro, na Mostra Universitária do Festival Panorama de Dança 2009, realizamos (a gente realizou) a segunda interferência pública da pesquisa, após a contemplação no programa Rumos. É importante lembrar que propostas cênicas relacionadas ao surgimento dos campos de investigação das dinâmicas do corpo urbano foram realizadas em outros três momentos, antes da confirmação dos selecionados no Rumos Dança 2009/2010.

Desta vez, o palco estava ocupado apenas por mim, mas, arrisco dizer que a cena estava ocupada por todos que compartilhavam daquele momento, em suas cadeiras, nas coxias, nos bastidores, etc. É a partir dessa idéia que reitero o termo “a gente” – “A gente vai fazer um experimento (…)”. Não houve apresentação, a gente experimentou juntos; vimos os “meios” se cruzarem no mesmo instante. Não houve preparação para além da iniciativa base da interferência. Acredito encontrar-se aí uma importante frente de investigação do “corpo urbano” e suas reflexões sobre corpo e mentalidade – já falamos anteriormente sobre o que podemos entender de “corpo urbano” após certo tempo de pesquisa desenvolvida.

Se na primeira interferência podemos dizer que, basicamente projetamos, de forma literal e apelativa, uma “farsa” do imaginário do homem urbano pós-moderno através da reprodução do discurso, da contenção do corpo que se apresenta como especial e sua heroificação, nesta segunda investida sobre a questão do imaginário e a construção de seus valores, a responsabilidade de projeção foi entregue ao público – se é que devemos nomeá-lo assim.

Um grande amigo me solicitou permissão para que ele pudesse escrever sobre o experimento. Portanto, inicialmente, não escrevei nada, não adicionarei fotos ou vídeos.

Interferência Pública #2 – por Thiago Gomes

Interferência pública #2. Esse é o nome do segundo experimento do meu amigo Bernardo Stumpf a respeito de sua pesquisa intitulada “Dinâmicas do Corpo Urbano”. Estive nos dois experimentos e tenho acompanhado sua pesquisa de perto, seja aqui pelo blog, ou em conversas na faculdade. Não quero com esse post estabelecer uma discussão sobre a interferência, mas sim, deixar registrado minhas impressões sobre a mesma e suas circunstâncias.

Mostra Universitária do prestigiado Festival Panorama de Dança 2009. Esperava uma outra postura dos espectadores (a grande maioria de estudantes dos três únicos cursos de dança do Rio de Janeiro: UniverCidade, Faculdade Angel Vianna e UFRJ), que a cada anúncio de coreografia, no qual era citado o nome do trabalho, o respectivo criador e/ou intérprete e ao curso a que era vinculado, gritavam o nome da instituição que faziam parte, como se defendessem a academia de dança num festival competitivo. Fiquei bem decepcionado. Achei que fosse conhecer novas pessoas, que fosse discutir trabalhos e pontos de vista. Frustrei-me.

Mas, por outro lado não podia ter sido um ambiente melhor para o experimento de Bernardo. Vou agora descrevê-lo, para assim melhor explicitar minhas considerações. Bernardo entra em cena e menciona o motivo da sua presença ali: o experimento Interferência pública #2, e a sua pesquisa contemplada no edital do Rumos Itaú Cultural 2009/2010. Em seguida, Bernardo, que está vestindo uma camisa branca, tira do bolso uma caneta, e começa desenhar o contorno de sua musculatura da caixa torácica. Peitoral, abdômen, serrátil… Todos esses músculos que em proporções específicas, são o sonho de imagem que muitos homens gostariam de ter. Afinal esse é o estereotipo clássico de um corpo belo. Durante essa cena, a platéia descrita no parágrafo anterior delira, todos os tipos de adjetivo são usados, e os assobios de “fiu-fiu” são inevitáveis. Nesse momento Bernardo que mantinha uma postura neutra diante daquilo, abre um leve e discreto sorriso, que a meu ver o deixou na corda bamba do experimento. O agente da cena foi de encontro ao público, ou seja, ele permitiu que seu experimento se tornasse um fracasso, perdendo o controle da relação performer/espectador. Não que esteja errado ou certo que a platéia se manifeste do jeito que estava, mas por um instante o experimento pode perder a validade, por conta dessa “aprovação” que Bernardo deu a platéia. Bernardo, com esse ato de sorrir, permitiu que o espectador invadisse a sua obra. Continuando… Ao terminar de pintar esses contornos, Bernardo se aproxima da platéia e de costas para o espectador, saca a caneta do bolso. Prontamente dois espectadores, saíram de sua cadeira e começaram a fazer o mesmo na parte de traz da camisa. Cada uma delas (eram duas moças) pintou o que achou melhor. Derramaram na camisa, toda a imagem que gostariam que o Bernardo tivesse, ou a imagem que faziam dele. O restante do público, por sua vez, não ficou de fora, ajudavam as duas moças com idéias: Pinta isso! Pinta aquilo! Gritavam todos. Projetando suas vontades e anseios na camisa de Bernardo.

Fiquei pensando. Se fosse eu com a caneta, o que teria pintado? Será que somos honestos consigo? Será que sempre projetamos aos outros a imagem do que gostaríamos de ser, e não de nós mesmos? Será que selecionamos os nossos nichos através dessas projeções? Se for assim, somos falsos consigo mesmo? E o corpo em tudo isso? Ele é só um divisor de alteridades? Se a existência se realiza no corpo, como posso simplesmente existir, e não querer comunicar algo com ele? No momento em que escrevo esse post, percebo como esse experimento me afetou. Como essas questões que levantei são preocupantes para mim. A condição pós-moderna me parece ingrata aos entes. Escravos obrigados a procurar sua própria sobrevivência.

Interferência Pública #2 – por Daniel Figueiredo

Olá a todos os seguidores do blog da pesquisa “Dinâmicas do Corpo Urbano”. Sou Daniel Figueiredo. Apresento-me, pois há muito colaboro com a pesquisa, junto ao Bernardo, e nunca fiz se quer um comentário sobre o que ele escreve aqui. Pois bem, aproveitando a bem vinda oportunidade e minha vontade de dizer algo a todos que se interessam por essa pesquisa ou pelo Bernardo e sua trajetória profissional, dedico esse tempo para as minhas impressões sobre o andamento do trabalho.

Para não me tornar muito alongado, não vou entrar em detalhes dos experimentos e sim, no que surgiu para mim após o acontecimento deles.

Este período da pesquisa na qual estamos mergulhados pode-se rotular de IMAGEM. Nesta fase, conseguimos entrar em algumas facetas deste polígono mutável. Primeiro projetamos uma imagem que só existiu na cabeça das pessoas. A “verdade” é que nada foi projetado pelo artista que produzisse, de fato, uma imagem existente. Não houve texto, nem fala, nem dança ritmada, fisicalidade, habilidade técnica ou qualquer artifício que fizesse o artista projetar alguma coisa. Ele apenas induziu o público a esperar alguma coisa que já estava dentro de cada espectador. Inclusive os que estavam esperando menos. Houve comentários diversos e adversos à pesquisa. No segundo experimento, mudamos o foco da pesquisa, mas o estimulo foi bem parecido. Na verdade, em minha opinião, o segundo experimento só vem para corrigir os erros do primeiro e reforçar a “verdade”. Nesta Interferência Pública #2, o artista continuou a não projetar nada além da própria imagem, mesmo usando uma caneta para desenhar seu próprio contorno monocromático. Quem estava presente continuou a enxergar aquilo que viu. Se viram um belo corpo que caracteriza o status de um homem bonito ou saudável, ou desejável, ou sexy, ou exibido, ou pretensioso; cada um viu o que quis projetar naquela tela branca. Este experimento ficou tão marcado para o público, que projetava não só na camisa branca como também na mão das senhoritas que desenhavam de fato naquela tela, que esqueceram de lembrar do único movimento que ele faz durante todo o experimento. O que era? O êxtase da possibilidade de responsabilizar outra pessoa pelo que pensaram fez o público se livrar da culpa de pensar aquilo que queriam. E se riram, qual é o problema? E se o artista riu, qual é o problema? Qual é o problema da “verdade”? Por que não queremos nos responsabilizar pelo que projetamos? Será que vivemos realmente livremente?

Não existe problema na projeção de uma imagem. O problema está em algum lugar que exista? Talvez o problema seja que tudo tenha que existir. Ser rotulado, classificado e julgado. A imagem por ela mesma, já não é material.

Se chegaram até aqui, obrigado e até o próximo post.

Prazos

Uma rápida colocação.

Alguns seguidores do blog vêm me questionando sobre a data da nova postagem. Realmente estou há muito tempo sem compartilhar experiências – falarei sobre isso no novo post sobre a pesquisa propriamente dita – e acredito que seja importante, para mim mesmo, estabelecer algumas diretrizes para a manutenção do blog.

Até a segunda semana de Dezembro, pretendo postar mais quatro vezes, sobre os seguintes assuntos:

. Festival Panorama de Dança 2009 (Interferência Pública #2);

. Novas leituras da pesquisa e suas repercussões (+ relação com leituras prévias);

. Conferência #1 (falarei sobre esse evento no post das leituras);

. Segunda etapa da pesquisa.

Contidos nesses posts estarão alguns textos de amigos e colaboradores que sentiram necessidade em problematizar certas questões das últimas experiências; achei interessante abrir o espaço do blog para que eles expressassem suas idéias. Talvez esse possa ser um momento importante para abrir discussões virtuais.

Portanto, nessas duas semanas seguintes, estaremos com novas informações postadas em um curto espaço de tempo. Confiram.

Próxima Página »